domingo, 26 de outubro de 2008

Torrista

    Ela estava sentada no ônibus. Seriam duas horas de viagem até à sua cidade. Depois de uma festa no dia anterior e de uma ficada mal sucedida  tudo o que ela queria era voltar em paz pra casa. 
     Senta - se um homem ao seu lado, aparência de uns trinta anos e um sorriso de despreocupação.
  - Boa tarde.
  - Boa tarde.
  - Eu gosto mesmo é de andar de ônibus. A senhora viu? O avião caiu, o avião caiu. ( Ele falou isso com um tom de certo desespero.)
  - Vi, sim. Mas avião é mais seguro que ônibus. Dificilmente cai.  
Ela respondeu com um certo tom de indifrença, não estava muito a fim de conversa. 
   - A senhora é muito bonita. É aeromoça?
   - Obrigada, mas não sou. 
   - A senhora parece aeromoça. Parece, mesmo. 
  Ela deu um sorrisinho sem graça. 
    - O avião vai cair, o avião vai cair!
Ela olhou de um jeito estranho pra ele.
     - Como é seu nome? A senhora é bonita. Tem cara de aeromoça.
Ela já estava começando a se incomodar. Resolveu não responder nada.
    - A senhora é aeromoça?
     - Não.
Já se notava seu tom de impaciência. 
     - Poxa, parece mesmo. Qual é o seu nome?
     - É Carol moço. 
Ela não tentava mais disfarçar sua irritação. 
     - Eu trabalho com torres. Sou torrista. Subo em torres.
Alguns minutos de silêncio. Ela achou que finalmente ia ter paz. 
     - O avião vai cair! O avião vai cair! - Ela estava ficando nervosa.
     - Ô, Cibele. Você é aeromoça?
     - Não. Meu nome não é Cibele e eu não sou aeromoça. 
     - A senhora é bonita. Devia ser modelo, aeromoça.
Ela se virou e fingiu que estava dormindo. Daí a poucos momentos lá vem ele de novo e começa a cutucá - la.
    - Cláudia, eu trabalho com torres. Sou torrista. 
Ela fingiu não perceber. Ele continuou a cutucá- la dizendo que era torrista e que ela era bonita e deveria ser aeromoça. 
   - Cláudia você é aeromoça? O avião vai cair! O avião vai cair!
Não adiantava fingir. Ele era realmente um chato. 
   - Você é bonita. É aeromoça?
Ela se irritou. 
   - Você pode me deixar dormir?
    - Eu trabalho com torres. Sou torrista.
Ela se levantou e mudou de lugar.
A mulher ao seu lado perguntou como ela tinha aguentado tanto tempo. 
     Um homem entrou no ônibus e sentou - se ao lado dele.   Ele começou com a mesma história. Pouco depois ouviam - se os gritos de ameaça. O homem estava mudando de lugar ameaçando bater nele.   
      Uma mulher sentou - se perto dele. E estava falando com ele baixinho.  Ele começou a xingá - la. Ela baixinha, pequenininha, começou a bater nele furiosamente. Ele gritava.
      Os passageiros olhavam estarrecidos . Todos carregavam a mesma expressão de quem não sabe o que pensar. 
       - Ai,ai, ai, ai, ...
        - Respeite os outros, me respeite que eu sou sua irmã.
     O que pensar de uma cena daquelas? A mulher tinha batido no irmão até o nariz dele sangrar.      Nós que  ficávamos ao lado dele alguns minutos já nos irritávamos , imaginem ela que talvez esteja há anos cuidando dele. Via - se no seu rosto claramente sinais de cansaço, de revolta, de impotência , de fracasso. 
      Mas como não se apiedar do rapaz? Ele não tinha culpa de ser assim. Deve ser horrível estar sempre errado.
      Depois de alguns minutos ele estava na janela falando sozinho, comentando o desempenho do motorista, como se o pudesse influenciar. Parecia que de algum modo todas as rejeições que o rapaz havia sofrido naquele dia tinham ficado para trás assim como as árvores da estrada.


2 comentários:

Porta bandeira de mim disse...

Nossa.Afinal o que era ele?!Um fingido ou um louco?!

Carol disse...

Um louco ou um certo