quinta-feira, 16 de abril de 2009

Transfigurações 2

   Ela cortou o cabelo. Olhou para o chão e viu os fios espalhados pela sala.  Era como se um pedaço de sua vida tivesse sido jogado para trás. Era tanto passado ali na sua frente que ela ficou com medo de sumir, desparecer naquele instante.
   Passou a mão na cabeça e parecia que lhe faltava algo, algo de substancial. As mãos passavam pela cabeça e a sentiam diferente. Era uma sensação esquisita. Olhou - se no espelho e não se reconheceu, mas se re - conheceu. 
   Não era mais ela, era outra. Era outras. Era todas aquelas que sempre sonhou ser. Era tudo aquilo que sempre imaginou que não podia ser, era o mundo, era o ar , era tudo. Era como um poder que emergia para suas mãos, era como uma ânsia violenta que tomava conta do seu corpo. Ânsia de vida, de poder, de prazer, de sucesso. 
   Saiu e sentiu que podia agarrar o mundo, comê - lo, devorá - lo. Viu o mundo de cima, sentiu vontade de cometer crimes e de sair impune. Afinal, quem era ela? Uma estranha , uma desconhecida. Todos os rostos familiares poderiam olhá- la que não iriam vê- la, ela estava livre. Livre. Livre!
    De repente viu uma garotinha sentada num banco da praça, de olhos baixos e se viu. Era todo aquele eu que parecia por um momento nunca haver existido, ali, lhe lembrando que ainda existia, lhe acusando de alguma coisa muito grave. Estava ali toda a sua fragilidade característica.Voltou a si. Como se acordasse de um sonho, ela passou a mão nos cabelos curtos e foi para casa.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Transfigurações

A gente muda. Corta o cabelo, deixa a barba crescer. Se esconde por trás da nova aparência. Por um momento temos a sensação de que somos outros, e o somos, se realmente acreditarmos nisso. Mas no fundo ainda sobra uma pontinha de nós mesmos, mesmo se for aquele velho eu desgastado, precisando de renovação. É tentadora a idéia de mudar de aparência e mudar de personalidade. De poder mudar de atitude, de vida. É deliciosa a idéia de pensar que não será reconhecida e ser re - conhecida. É maravilhoso transfigurar - se , permitir que aqueles outros eus que estão há tanto tempo ocultos emerjam à superfície e saudem os novos horizontes. É muito bom conhecer os outros lados da existência e ultrapassar a fronteira que nós mesmos nos impomos por questões de respeito às convenções, por medo e insegurança, por não enxergar as possibilidades além. Esse deveria ser o objetivo de todos nós: a transcendência.